quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Experiência Vocacional de Moisés – Vivência do Amor.


O ser humano é alguém que vive de experiências que constroem e consolidam a vida. E quando o ser humano – cristão realiza uma experiência vivencial do Amor de Deus, ele transforma sua vida, a vida das pessoas ao seu redor e todas as situações de menos vida da sua realidade.
Na história de Moisés (Êxodo, 2, 3 e 4) encontramos um exemplo belíssimo dessa experiência. Moisés foi salvo das águas pela filha do Faraó, rei do Egito, é criado e educado na coorte do rei. Moisés, porém, tem sangue hebreu e “sai” do palácio e “vai” ao encontro dos seus irmãos hebreus. Esse sair e ir faz com que Moisés “veja” a situação de escravidão de seu povo e se torna solidário com ele, defendendo-o do opressor. Moisés foge para o deserto, defende as filhas do Sacerdote de Madiã e é acolhido por ele. A salvação não acontece mais no fértil Egito, mas no deserto onde vive o sacerdote que não perdeu a fé no verdadeiro Deus.
Na convivência com a família do sacerdote de Madiã, Moisés realiza duas experiências: a experiência do Amor, casando com uma das filhas do sacerdote e a experiência de Deus, do seu AMOR presente como fogo que queima. E nesta vivência do Amor, Moisés faz a experiência da fé no Deus verdadeiro, no Deus de Israel. Deus se mostra para Moisés como um Deus que “vê” a miséria de seu povo; “ouve” o seu clamor; “conhece – sente” no coração os sofrimentos de seu povo. Por isso, é um Deus que “desce” para estar ao lado de seu povo; o “liberta” da escravidão e o faz subir”, ressuscitar para uma vida nova. Deus envia Moisés para libertar o seu povo, agora repleto da força do seu amor e da sua fé – “vai e liberta o meu povo”. Agora Moisés também vai “ver” a miséria do povo; “ouvir” os seus clamores; “conhecer – sentir” os sofrimentos do povo: “descer” de volta ao Egito para estar ao lado de seu povo; “libertar” o povo da escravidão e para “fazê-lo subir” para a terra da liberdade.
E Deus ainda dá a garantia para Moisés:
Deus revela o seu nome “Eu Sou aquele Sou”. Deus é Verbo – Ação presente. Deus nunca foi e nunca será - Ele É. São João, por isso diz: Deus é Amor. Deus atua, age na pessoa humana por meio de seu Amor.
Deus transmite seu poder para Moisés: a vara que se transforma em serpente; a mão leprosa em mão sadia e a água transformada em sangue.
Deus ensinará a Moisés o que ele deve falar – vai falara a Palavra de Deus por meio de Aarão.
A Vocação de todo cristão é e deve ser uma experiência do Amor transformador de Deus. Somos convidados e convocados por Deus para uma grande Missão: “Ver”, “Ouvir”, “Conhecer-sentir” os sofrimentos, os clamores do povo; “Libertá-lo” de toda escravidão e de “Elevar” toda pessoa humana em sua dignidade de filhos e filhas de Deus, para viver na força do Amor Redentor em Jesus Cristo. Vivendo esta experiência do amor, dirigimos nossa vida para o fim último, a Vida Eterna. Perdendo o horizonte da vida, transformamos nossa vida terrena num vazio. Procuramos a todo custo aproveitar o máximo esta vida, pisando por cima de tudo e todos. Se a criança – adolescente – jovem perde o rumo da vida dirigida para o alto, também não vai se interessar em assumir com responsabilidade uma vocação, a colocar a vida a serviço. Como deixamos que esta experiência do Amor torne-se realidade em nós? Como estamos assumindo a nossa Vocação-Missão na família, na Igreja e na sociedade? Como estamos evangelizando, ensinando e direcionando a vida para o fim último – a Vida Eterna?
A partir dessa experiência vocacional de Moisés podemos olhar para o Documento de Aparecida, nos perguntando como deve acontecer o “Processo de Formação do Discípulo  Missionário de Jesus Cristo”?
Jesus formou seus discípulos para uma experiência vivencial com o mestre. Jesus faz um convite pessoal, os chama pelo nome, os convida para estar com ele, os atrai para si, transforma suas vidas numa contínua conversão e os envia em missão. Fundamental: o discípulo é alguém apaixonado por Cristo, a quem reconhece como mestre que o conduz e acompanha na caminhada.
Aspectos do processo de formação do discípulo-missionário:
O ENCONTRO COM CRISTO: é a iniciação cristã – anúncio fundamental sobre Jesus Cristo para chegar a maturidade cristã.
A CONVERSÃO: é a resposta de quem aceita Jesus – muda sua forma de pensar e viver, aceita a cruz de Cristo para morrer para pecado e alcançar a vida – sacramento do batismo e da reconciliação.
O DISCIPULADO: é o amadurecimento constante no conhecimento, no amor e seguimento de Jesus Cristo, se aprofundando no mistério de sua pessoa, de seu exemplo e doutrina – necessidade da catequese permanente e vivencia sacramental.
A COMUNHÃO: é a vivencia e a participação da vida comunitária, o encontro de irmãos, vivendo o amor a Cristo na vida fraterna e na solidariedade.
A MISSÃO: é o partilhar a experiência pessoal com Cristo, levando a alegria de ser discípulo, anunciando Jesus em sua vida, morte e ressurreição e tronando realidade o amor e serviço aos irmãos, em especial aos mais pobres e abandonados – é construir o Reino de Deus.
CRITÉRIOS PARA A CAMINHADA DE FORMAÇÃO.
Fundamental: formação integral, querigmática (anuncio fundamental) e permanente.
DIMENSÃO HUMANA E COMUNITÁRIA: assumir a história pessoal, desenvolvendo e amadurecendo a personalidade e transformando a sua vida para o serviço do Reino, inserindo o cristão no mundo atual complexo e em contínua transformação.
DIMENSÃO ESPIRITUAL: fundando o cristão na experiência de Deus manifestado em Jesus Cristo e que o conduz pelo Espírito para o amadurecimento da fé.
DIMENSÃO INTELECTUAL: reflexão séria, na luz da fé para um discernimento das realidades que nos cercam, construindo um juízo crítico dessa realidade abrindo-se para o diálogo e encontro de culturas. Importante o estudo teológico bíblico e das ciências humanas.
DIMENSÃO PASTORAL E MISSIONÁRIA: anunciar Cristo na própria vida e no seu ambiente vivencial, pelo apostolado nas pastorais – movimentos, usando todos os recursos disponíveis para a Evangelização Missionária.
Para esta formação ser uma realidade, é necessário que ela seja organizada a partir da diocese, das paróquias e comunidades, onde todas as forças vivas devem ser envolvidas: associações, serviços e movimentos, comunidades religiosas, pequenas comunidades, comissões de pastoral social e os diversos organismos eclesiais que devem oferecer uma visão de conjunto e abrangente na formação.
As instancias de formação iniciam com o bispo diocesano, passando pelos presbíteros, diáconos, os religiosos – religiosas e leigos atuantes.
A formação deve capacitar os leigos para serem discípulos -  missionários no mundo, na perspectiva do diálogo e da transformação da sociedade – mundo da política, da realidade social, da economia, da cultura, das ciências, das artes, da vida internacional, dos meios de comunicação, etc.
A formação deve ser na linha da espiritualidade missionária, impulsionada pelo Espírito Santo, para transformar a vida pessoal em vista de uma missão encarnada, e não simplesmente num devocionismo estéril e privado. O Espírito não nos fecha numa intimidade cômoda, mas nos torna generosos e criativos, felizes no anúncio e no serviço missionário.
Iniciação à vida cristã e catequese permanente.
Temos muitos cristãos batizados, mas ausentes da vida sacramental e comunitária e não atuantes dentro da sociedade. São católicos insossos  e apagados, com identidade cristã fraca e vulnerável.
Esta realidade nos questiona sobre o conteúdo e dinâmica de nossa catequese. Ensinam-se conteúdos, doutrinas, normas morais sem atingir o centro da vida cristã: Jesus, sua pessoa, proposta e redenção. Os sacramentos da iniciação cristã – batismo, crisma e eucaristia devem levar o cristão a assumir a vida em Cristo.
Propostas:
Levar a experiência pessoal com Cristo – conversão – inserção na comunidade.
Ser testemunha de Cristo vivo, transformando a vida na celebração dos mistérios cristãos, inserindo na vida sacramental.
Aprendizagem gradual no conhecimento, no amor e seguimento de Cristo.
Levar ao espírito de oração, amando a Palavra de Deus, vivendo a vida sacramental.
Catequese vocacional e missionária.
Catequese Permanente: é necessário que a catequese tenha um caráter permanente, atualizando conteúdos e métodos, formando teológica e biblicamente as catequistas, fundamentando-a nas famílias.
Como catequistas temos que ter consciência sobre os “valores” para os quais as novas gerações são hoje formadas.
Nos anos 20 a 40 do século 20, as gerações jovens eram formadas para valorizar a família, a religião e a escola; nos anos 60 – 80 para a luta pela libertação – ação política, social, participação nos movimentos populares e hoje, as gerações jovens são formadas para o consumismo: bens de consumo, comportamentos de consumo (ex. sexo virou diversão). Temos consciência dessa situação e a levamos em consideração na catequese? Propomos uma vivência cristã autentica, ou ficamos num pietismo estéril consumista?
          Que Maria, a Mãe do Amor nos ajude a descobrir os maravilhosos caminhos de Deus, para renovar nossa vida e a de nossos catequizandos.

Pe. Inácio Gebert – Missionário Redentorista  

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